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segunda-feira, 16 de maio de 2011

BRASIL: PRECONCEITO RACIAL E MOVIMENTO NEGRO NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX

                                         SUMÁRIO              

1 INTRODUÇÃO........................................................................................................9

2 BRASIL:  PRECONCEITO RACIAL E MOVIMENTO NEGRO NO FINAL DO
  SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX............................................................. 11

2.1 O NEGRO EM BUSCA DE SEUS DIREITOS.....................................................17

2.2 RESISTÊNCIAS E CONSEQUÊNCIAS..............................................................20

3 SURGE O MOVIMENTO NEGRO..........................................................................22

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................29

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................31




1 INTRODUÇÃO                                                                                                                      
     
               Dentro da linha teórica História e Cultura, esse Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem como foco a História do negro no Brasil, direcionando a análise especificamente para o preconceito racial no final do século XIX e inicio do século XX, além disso, vêm enfatizar o Movimento Negro, suas conquistas e direitos de igualdade ao longo do tempo, bem como os desafios enfrentados para galgar realizações projetadas, objetivando desse modo, refletir sobre a sua história no Brasil, entendendo suas lutas e conquistas na sociedade contemporânea em um contexto político, social e cultural.
Outro ponto importante do trabalho monográfico é analisar os motivos que levaram as elites dominantes praticar ações discriminatórias para com os negros, força motriz do desenvolvimento econômico do país; identificar as características dos Movimentos Negros e constatar os resultados positivos na atualidade para essa etnia.
                            A abordagem do tema se faz em decorrência das grandes discussões levantadas, concernentes à História Oficial do Brasil, destinando ao negro um espaço que começa na África e termina na escravidão e sobre a civilização negro-africana que se espalhou numa nuvem de preconceito, esquecimento e exotismo que o senso comum reproduz em suas narrativas e que ainda situam as culturas africanas como primitiva.
                           O senhor, dono de escravo tinha nas mãos todos os meios disponíveis de dominação. A história do negro no Brasil foi contada e relatada em livros oficiais que os negros já eram escravos na África. Os negros eram preguiçosos, precisando, portanto de feitores para trabalhar direito. A história em livros conta também que o negro tem o sangue quente. Tudo isso foi dito ao longo dos tempos. Eis algumas das causas que levaram a história do negro a tomar uma configuração negativa, apresentando-o com uma raça inferior, sem dignidade de qualquer outra raça. Tanto é que os próprios negros estão impregnados de imagens negativas em relação a si mesmo.
 Abolida a escravidão, a imagem negra simplesmente some dos manuais de História e se fixa de forma perversa no imaginário. Entretanto, a compreensão clara da miscigenação no Brasil, nesses 500 anos, não é possível se não conhecermos de forma mais profunda a presença negra na sua constituição.
                          Vale ressaltar, portanto, que o desenvolvimento desse TCC se estrutura de forma analítica, tendo como parâmetros as ideologias de alguns historiadores, focando nas bases de concordância entre eles, a fim de que se possa obter um conhecimento mais próximo da realidade, concernente às suas lutas pelo direito de igualdade e dos acontecimentos ocorridos por meio do negro africano em terras brasileiras.
                     Assim sendo, para entender o presente, é preciso compreender o que a história significa no passado e, ainda, refletir sobre as diferenças entre a mesma e os pontos de vista e interpretações históricas de muitos historiadores 



2- BRASIL: PRECONCEITO RACIAL E MOVIMENTO NEGRO NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX


Diante da História do negro no Brasil, vale dizer que está presente o preconceito racial, o que o torna uma forma de exclusão social bastante comum no mundo. Nota-se, porém que o Brasil, país de raízes multiculturais, em sua maioria negra ou afro descendente, o racismo é uma prática muito freqüente, o que nos leva a pensar em qual seria o verdadeiro motivo para tamanha discriminação. 
O documento em questão vem relatar por que a classe dominante da época temeu ao observar o crescimento da população negra no Brasil a ponto de fazê-los passar por tão grandes constrangimentos perante a sociedade branca. Quais os setores da sociedade que se envolveram no processo de direcionamento das discussões de criação de políticas sociais étnicas? Quais as primeiras medidas tomadas pelos envolvidos na causa a fim de que surgissem os movimentos negros no Brasil?
                            Este Trabalho de Conclusão de Curso objetiva também analisar a identidade de um povo, em âmbito nacional, o que pode transformar-se lentamente, seguindo as modificações históricas ou de forma mais veloz, sobretudo em períodos de guerra ou de grandes transformações locais ou nacionais. Muitas vezes essas mudanças são geradas durante certo tempo e, a partir de algum movimento, tornam-se visíveis.
                            Dessa forma, há de se observar que o preconceito racial e o Movimento negro no Brasil não devem ser entendidos como temas desvinculados de histórias passadas, mas, uma conjuntura que visa um desencadeamento para o processo da História Contemporânea, enriquecendo as culturas humanas ao longo do tempo, dando sentido em especial, à história da cultura brasileira.
  
Na descrição desse processo o branco pouco aparece, exceto como modelo universal de humanidade, alvo da inveja e do desejo dos outros grupos raciais não-brancos e, portanto, encarados como não tão humanos. Na verdade, quando se estuda o branqueamento constata-se que foi um processo inventado e mantido pela elite branca brasileira, embora apontado por essa mesma elite como um problema do negro brasileiro (BENTO, SILVA, 2002.p.1).


Nesse caso Bento Silva utiliza-se da argumentação de que o outro lado dessa moeda é o investimento na construção de um imaginário extremamente negativo sobre o negro, que solapa sua identidade racial, danifica sua auto-estima, culpa-o pela discriminação que sofre e, por fim, justifica as desigualdades raciais.
                          Sabendo-se que o Brasil foi o último país a libertar os escravos, é evidente que esse fato histórico veio a deixar marcas na sociedade brasileira. Em sua tese, Silveira Nunes (2006, p.90) aborda o seguinte:

                                        É preciso lembrar que a abolição foi lenta. Mas é preciso também pensar o lugar que a ciência ocupou na consolidação do preconceito contra os negros. Para que se lute contra o racismo é preciso primeiramente reconhecer que ele existe. Sem essa “confissão” tira-se do foco o alvo que se quer atingir.

Responsável pelo maior translado humano da história - entre 3,6 e cinco milhões de africanos, importados para o Brasil, de várias partes do continente africano -, a escravidão gestou estruturas, relações sociais e econômicas, valores e conceitos, visão de mundo incluindo visão de Estado, que tinham por meta sua permanência, sobrevida e a manutenção dos privilégios resultantes. Em suas conjecturas, Ferreira (2000, p.13) afirma que o povo negro sofreu a dominação e a opressão racial. Os brancos julgavam-se com direitos superiores. A cor da pele dava e ainda hoje dá o tom da superioridade racial.
Contrapondo-se a esse conceito, Carneiro justifica que:
                                      Há trezentos anos que o africano tem sido o principal instrumento da ocupação e da manutenção do nosso território pelo europeu e que os seus descendentes se misturam com o nosso povo. Aonde ele não chegou ainda, o país apresenta o aspecto com que surpreendeu os seus primeiros descobridores. Tudo o que significa luta do homem com a natureza [...], não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar ( 2005.pp, 25/26).
Nessa perspectiva, Carneiro, 2005 evidencia que a cor do Brasil não é um preconceito social, e sim, “um interesse público de primeira ordem para nós”.
                         Foi a partir do século XVI até meados de 1850, quando foi abolido o tráfico de negros para o Brasil, que presencia a chegada de inúmeras pessoas de diferentes regiões do continente africano, tendo uma forma de relação caracterizada pelo preconceito, sendo vistas como peças, particularidade de um senhor, podendo ser alugadas, vendidas, compradas, contabilizadas nas fazendas juntamente com cabeças de gado e de outros pertences e bens materiais do senhor da fazenda. Silveira Nunes afirma que:
                                         ...o panorama geral da escravidão, recomposto por vários historiadores  mostra que o regime escravista não foi menos violento do que em outros países. Ao contrário, podemos perceber uma violência cotidiana, multiforme e naturalizada, que nos dá pista para o entendimento do racismo brasileiro atual (2006, p.90)

Partindo dessa premissa, nota-se que um pouco depois da assinatura da Lei Áurea, estando em vigência o regime republicano, em dezembro de 1890, o Ministro e então secretário de Estado dos negócios da Fazenda e Presidente do Tribunal do Tesouro Nacional Ruy Barbosa, veio a queimar documentos oficiais que incriminariam e provariam o regime de escravidão no país, justificando dessa forma, que deveriam apagar da história do Brasil acontecimento tão vergonhoso. No mesmo ano, foi criado o Hino da República onde se dizia: Nós nem cremos que escravos outrora/ tenha havido em tão nobre país. Sobre esse fragmento, Costa afirma:
                                         ...o Estado apropria-se da história, controla e manipula o entendimento do processo histórico, confunde a noção de temporalidade e impinge o esquecimento. Garante assim, a continuidade do mesmo sistema sob nova e atual roupagem: sem escravos e, logo depois, sem rei. Para dominar, há que se tornar senhor da memória e do esquecimento. (1996, p.84).

Na visão de Nabuco (2000), as ilusões dos escravos quanto à emancipação resistiram às frustrações da Independência brasileira e às leis de papel que deveriam minorar a sua situação. O tráfico mesmo proibido permaneceu ativo sob os olhos e beneplácitos das autoridades; a Lei do Sexagenário livrava o senhor do fardo de manter o velho escravo; a Lei do Ventre Livre era contornada habilmente pelos senhores de escravos; e, a abolição foi uma obra incompleta. Mesmo assim, eles mantiveram a esperança.
Todavia, só a partir da década de 1930, com base, principalmente, nas teses sobre a miscigenação e na forma envergonhada de expressão do discurso racista, consolidou-se no país o mito da democracia racial. O que significa que, ainda durante a maior parte deste século, foram inibidas ações de combate ao racismo, a organização cultural e política dos negros brasileiros, e a implantação de políticas para a superação das desigualdades raciais. É nessa linha de pensamento que Gonçalves, (1998) salienta que considerando apenas os movimentos em que a luta antirracista assume uma dimensão política, ou seja, ganha as ruas e busca canais institucionais para se legitimar, acaba por apresentar algumas configurações.
De encontro a esse entendimento, Ianni (2004) salienta que “esse mito da democracia racial antes de ser político e social acaba servindo aos interesses das elites dominantes.
Para Nunes (2010), falar em branqueamento hoje é um pressuposto de que tanto o negro quanto o mestiço querem e devem se afastar ao máximo de tudo aquilo que lembra o “o ser negro”, para que ocorra uma verdadeira integração social. Do ponto de vista de Bento Silva (2000);
                                   Essa dinâmica não é simples, pois evoca um desejo de ver o negro como “menos” negro e “mais” branco, mas ao mesmo tempo como um movimento só do negro, como se ele desejasse naturalmente ser branco, pois ser branco é ser melhor.


 Conforme Rodrigues (1935, p.388), em sua obra, a inferioridade social do negro é um fato incontestável. Não é a inferioridade social dos negros que está em discussão. Ninguém se lembrou ainda de contestá-la. E tanto importaria contestar a própria evidência.
Como descrito por Bento Silva (2002), no Brasil o branqueamento é frequentemente considerado como um problema do negro que descontente e desconfortável com sua condição de negro, procura identificar-se como branco, miscigenar-se com ele para diluir suas características raciais. Porém,
...a partir do momento que ele assume a sua negritude, passa a olhar-se como dono de uma interioridade negra e daí assume a sua postura de ver o mundo como negro. É essa tomada de consciência étnica que estamos vendo surgir no Brasil, embora ainda de forma débil e um tanto imprecisa, mas já como sintoma de um processo emergente de conscientização dessa comunidade (FERREIRA, 2000, p.9)

Logo, percebe-se que o mito da democracia racial fala de uma cordialidade que até existe, mas é superficial e se restringe á ponta de um iceberg:

                                                                       O preconceito racial é um fenômeno de grande complexidade. Por isso                             costumo compará-lo a um iceberg cuja parte visível corresponderia às manifestações do preconceito, tal como as práticas discriminatórias que podemos observar através dos comportamentos sociais e individuais. Práticas essas que podem ser analisadas e explicadas pelas ferramentas teórico-metodológicas das ciências sociais que, geralmente, exploram os aspectos e significados sociológicos, antropológicos e políticos, numa abordagem estrutural e/ou diacrônica. A parte submersa do iceberg corresponde, metaforicamente, os preconceitos não manifestos, presente invisivelmente na cabeça dos indivíduos, e as conseqüências dos efeitos da discriminação na estrutura psíquica das pessoas (MUNANGA, 2002 apud SILVEIRA NUNES, 2010, p.47).
   

Dentre muitos livros e artigos que abordam temas relacionados ao preconceito racial no Brasil, é de suma importância frisar um livro perene, publicado num período de historiografia Contemporânea. Além da escrita, se tornou importante para o historiador. Em Casa Grande & Senzala, Freyre foi pioneiro no modo de abordagem sociológica, histórica e antropológica e também em conceitos como “luso-tropicologia”, rurbanismo, morenidade, tempo tríbio, meta, raça. Freyre é geralmente percebido como o pensador da vida cotidiana, como historiador da intimidade, da cultura em oposição ao mundo institucional. Continuamente com riqueza de detalhes, de descrições, recorreu a todo tipo de fontes para corroborar suas idéias e documentos oficiais. Começa, porém, a ser desenhada uma cultura de democracia participativa, que necessariamente inclui a cidadania cultural.
Vale ressaltar a importância de Antologia do negro, livro de Edison Carneiro, apresentando essa obra que compõe um quadro inigualável sobre a cultura de nosso povo, bem como as circunstâncias históricas que transformaram a sociedade em quase cinco séculos, fazendo parte desse relato autores como Ruy Barbosa, Machado de Assis, Castro Alves e Mário de Andrade. São relatos e documentos históricos que tratam do negro e da formação de nosso país.
Outra obra literária de grande relevância, “Eu, negro. Discriminação racial no Brasil”, autoria de Anísio Ferreira dos Santos, que visa desvelar o racismo e o preconceito que estão espalhados por toda a sociedade. A intenção desse livro foi o de fazer chegar às mãos do negro um material de reflexão às formas do preconceito racial e ao mesmo tempo questionar a sua posição na sociedade, em relação à própria negritude.
Para realização desse TCC, foi analisado também o importante artigo “Racismo no Brasil: Tentativas de disfarce de um violência explícita”, de Sylvia da Silveira Nunes, Doutoranda em psicologia do desenvolvimento humano – USP. A autora desse artigo mostra o racismo justificado pela ciência, tentando manter a desigualdade de tratamento entre brancos e negros, observada até os dias atuais.
Outro artigo analisado: “Ser negro no Brasil: alcances e limites” de Fátima Oliveira, (2002-2006).
Para complemento desse trabalho, foi analisada a entrevista de Octávio Ianni, como tema “O preconceito racial no Brasil”. Em sua entrevista, Ianni analisa o preconceito racial onde esses surtos de diferentes manifestações de racismo e intolerâncias estão sobrepostos com a dinâmica da sociedade.
Outro artigo relevante analisado para construção do TCC foi “Os Movimentos Negros no Brasil”, de Luiz Alberto de Oliveira Gonçalves (1988), indicando algumas teorias que ajudam a interpretar as ações dos movimentos negros no Brasil ao longo do século XX e por fim, fazendo breves comentários do ponto de vista de ilustres cientistas sociais que dedicaram parte de suas obras ao estudo da luta contra o racismo no Brasil.
A tese de Sylvia de Silveira Nunes sob o tema “Racismo contra negros: um estudo sobre o preconceito sutil” objetiva o estudo do preconceito racial contra os negros, evocando um movimento constante de olhar tanto para o indivíduo quanto para a cultura. Obra que vem somar resultados positivos ao trabalho de conclusão de curso.
Outro texto importante de grande valia para a construção desse trabalho tem como tema “Desigualdade racial no Brasil: Evolução das condições de vida na década de 90”, de Ricardo Henriques (2001), o qual fornece um relato empírico detalhado de diversas dimensões da desigualdade racial no Brasil. Em particular, procura tornar evidente, no contexto da investigação sobre as condições de vida das populações branca e negra, a magnitude das diferenças e as trajetórias de convergência ou divergência entre brancos e negros ao longo da década de 90.
O artigo “Branqueamento e Branquitude no Brasil, de Maria Aparecida Silva Bento vem enriquecer esse trabalho com análises profundas dos traços de identidade racial do Brasil brasileiro, focalizando alguns aspectos referentes ao entrelaçamento das relações raciais com outras mais concretas e objetivas.
Esse trabalho vem abordar de forma minuciosa a questão da luta dos negros por seus direitos, desencadeando ideologias de cada autor bibliográfico pesquisado, visando um panorama geral de suas dificuldades de reconhecimento como cidadãos de uma nação, bem como suas conquistas ao longo de toda a história. Este TCC vem relatar alguns fatos das resistências e das possíveis conseqüências positivas e negativas dos negros em meio a uma grande massa da população branca, ou seja, da elite européia, dificultando dessa forma o processo de liberdade e igualdade entre um dos povos que deu origem à nação brasileira, o africano. O presente trabalho também vem argumentar, na visão de vários autores, a questão do movimento negro no Brasil e quais as suas contribuições no processo de liberdade e igualdade entre o branco e o negro; quais movimentações foram realizadas a fim de que a população negra viesse adquirir por meio de tramitações legais, algumas conquistas que se tornaram obrigatórias judicialmente, dando primazia ao negro brasileiro.

2.1  O NEGRO EM BUSCA DE SEUS DIREITOS

                          Mais de trezentos anos de escravidão, do século XVI até o final do século XIX, como instituição legal, social e econômica, que determinou o estilo de vida do Brasil colônia, representando uma referência histórica fundamental para se compreender as desigualdades raciais no país, e o aprofundamento da hierarquização dos direitos e da própria definição de humanidade, de valor social e de pessoa. O escravo, para que a escravidão se justificasse, não era considerado um ser totalmente humano por nenhuma das instituições, inclusive pela igreja. As práticas culturais e religiosas, a visão de mundo desse conjunto humano foram sistematicamente desqualificadas, apesar de sua integração ao modo de ser nacional, após mais de trezentos anos de convivência cultural, e sendo a sua força de trabalho responsável pelo desenvolvimento da economia. Em sua ideologia, Ferreira conclui o seguinte:
                                   O opressor tinha nas mãos todos os meios disponíveis de dominação. E na sua esperteza, dominava e domina até mesmo na seleção dos fatos a serem registrados para a sua posteridade. Vale a pena dizer que a dominação ou a manipulação de informação é uma das maneiras mais criminosas de escravizar um povo. Pois um povo sem informação é um povo sem formação e sem história. Um povo que não conhece a sua história perde a sua própria identidade. (2000, p.13).
Na opinião de Ferreira, a rica história invisível dos seres escravizados nos vários países africanos, sua recriação cultural, é apenas parte do ser cultural brasileiro. A polícia a envolver em suas práticas religiosas, a prática da medicina e das outras ciências, a cultura de produção rural e de utilização da terra, a política de imigração, o sistema político, os métodos utilizados para a sistematização dos dados, as relações de produção e de gerenciamento da riqueza, o regime de propriedade e de créditos, o sistema legal e o escolar, o mercado de trabalho, tudo foi estruturado para atender à necessidade de enriquecer os senhores, de controlar o escravo ou, depois, para consolidar e justificar as desigualdades.
Segundo a especialista Sylvia Nunes,
                                         [...] mudaram as aparências, mas a essência das relações sociais não mudou. A atitude do Estado para a situação do negro “liberto” sempre foi omissa: a miséria material, a discriminação e a humilhação vividas pelos afrodescendentes são reduzidas à culpa deles mesmos por meio de uma manobra ideológica que transforma o que é da esfera das relações de poder em algo natural, inerente à raça. A ideologia republicana pedia um projeto de nação que, por sua vez, requeria que se repensasse o homem brasileiro. (2006, p.91).
Do ponto de vista de Nunes (2006), nota-se que a aparência física dos negros, exceto quando se tratava de servir sexualmente os senhores, foi associada à dos animais e esteticamente desagradável ou inferior. Seu corpo era para o trabalho e sua força utilizada como a dos animais. A participação nas artes, extremamente relevante, sobretudo no século XVIII, pouco ampliou os seus direitos, ou lhes assegurou o exercício da cidadania. Nessa perspectiva, Freyre narra o seguinte:
                                      O depoimento dos antropólogos revela-nos no negro, traços de capacidade mental em nada inferior à das outras raças: “considerável iniciativa pessoal, talento de organização, poder de imaginação, aptidão técnica e econômica”,[...] e outros traços superiores. O difícil é comparar-se o europeu com o negro, em termos ou sob condições iguais. Acima das convenções: em uma esfera mais pura, onde realmente se confrontassem valores e qualidades (Casa Grande e Senzala, p.379).
No período pós-Abolição, a ausência de um sistema legal explícito que definisse as desigualdades e, ainda, as africanidades visíveis da cultura brasileira, serviu como argumento para que o Estado e a sociedade desconsiderassem a necessidade de se criar mecanismos para a inclusão do povo negro no processo de desenvolvimento nacional. Partindo dessa premissa,
                                         [...] o negro brasileiro por uma série de razões, durante muito tempo, pelo menos em algumas camadas significativas, introjetou a ideologia do dominador branco, acomodando-se dentro de espaços sociais limitados e regulamentados pelo opressor. Isso levou a que ele não reivindicasse a criação de uma literatura que partisse da consciência da sua negritude, mas dos padrões de uma ciência social ou de uma literatura branca, através da qual o negro se branqueasse social e culturalmente (FERREIRA, 2000, p.9).
                             
                           Desde a Independência e principalmente durante metade do século XIX a classe dominante brasileira esteve preocupada com um fato cruciante: A formação da nação brasileira, ou apenas, da sociedade brasileira. Conforme Neres, Cardoso e Markunas (2006, pp. 134 -140).
                                         era preciso evitar a fragmentação do vasto território e garantir as fronteiras. [...] Deste modo, tornou-se recorrente desde fins do século XIX a explicação da composição da sociedade brasileira a partir da fusão de três raças: o branco, o índio e o negro. Porém, essas três raças participavam de modo diferenciado e hierarquizado, cabendo aos brancos a liderança dos processos sociais. [...] Num país como o Brasil, em que grande parcela da população era (e é) miscigenada, a crença nessas teorias levaria à própria desagregação social e a um profundo pessimismo quanto às possibilidades de futuro. [...] O branqueamento era uma necessidade aos olhos dos homens da ciência. Era preciso transformar, ao longo de algumas gerações a composição racial brasileira, por meio da incorporação dos negros e índios pelo elemento branco, que se tornaria pouco a pouco, predominante
Os autores enfatizam e justificam o motivo pelo qual a sociedade branca temia o crescimento e desenvolvimento da população negra, visto que, além de justificarem a necessidade de braços para a lavoura, muitos parlamentares na época de 1808 em suas intervenções, chamavam a atenção para a necessidade de convocar elementos brancos com a finalidade de melhorar a qualidade de vida física e moral do povo brasileiro.
A escolha de trabalhadores europeus era uma preferência nítida dos parlamentares, não apenas uma fatalidade. Mesmo existindo outras possibilidades, como contratar os próprios ex-escravos, os trabalhadores nacionais ou ainda os orientais (chamados chins), os projetos de imigração aprovados definiam invariavelmente a contratação e a propaganda imigrantistas de países da Europa (NERES; CARDOSO; MARKUNAS, 2006, p.140).
A Era Vargas (1937-1945), sobretudo no Estado Novo, foi um período em que discriminações políticas e raciais marcaram o cotidiano brasileiro. O poder exigia ordem mantida à custa de repressão.
                                         Revolucionários, grevistas, comunistas, negros, mulatos, e outros, todos colocavam em perigo a ordem racial, política e cultural do Brasil. Neste contexto, os fascistas foram bem-vindos em alguns estados do Brasil. E em 1934, a Ação Integralista Brasileira (Partido Nacional Fascista) divulgava seu programa político defendendo o fortalecimento da raça através do controle de todos os males sociais e raciais (CARNEIRO, 1997, pp.36).
Em meio a esses relatos, percebe-se, porém que os preconceitos de cor adquiriram nesse período novas formulações por meio das teorias raciais vindas da Europa e reelaboradas por intelectuais, cientistas e instituições brasileiras desde o final do século XIX e por meio das conseqüências práticas dessas teorias. Denota-se, portanto, que a marginalização e preconceito ficaram impregnados na mente do negro,  até porque, o preconceito de cor fundamentava na escravidão diferenciações sociais. Desse modo, Neres, Cardoso e Markunas (2006) afirmam que “as possibilidades de os negros ocuparem papéis sociais que pressupunham qualquer melhoria, eram duplamente vedadas: por sua condição social e por sua cor”
                         Fica claro, portanto, a abordagem histórica do negro no Brasil bem como suas lutas por direitos de igualdade na sociedade contemporânea.


2.2 RESISTÊNCIAS E CONSEQUÊNCIAS


Sendo assim, movimentos sociais e expressivos envolvendo grupos negros perpassam toda a História do Brasil. Contudo, até a  Abolição da Escravatura em 1888, estes movimentos eram quase sempre clandestinos e de caráter radical, posto que seu principal objetivo era a libertação dos negros cativos. Visto que os escravos eram tratados como propriedade privada, fugas e insurreições, além de causarem prejuízos econômicos, ameaçavam a ordem vigente e tornavam-se objeto de violenta repressão não somente por parte da classe senhorial, mas também do próprio Estado e seus agentes.   
A resistência estava presente no dia-a-dia dos trabalhadores escravizados desde “atitudes de insubordinação, a lentidão na execução dos trabalhos, a destruição de ferramentas, a simulação de doenças, pequenos furtos” (GENNARI, 2008). Em 16 de outubro de 1886, é aprovada a lei que proíbe o açoite aos escravos, após pressão abolicionista. Depois disso, muitos escravos começaram a fugir das fazendas, pois não corriam risco de serem açoitados.
Contudo, as formas de resistência à escravidão não se resumiam a ações individuais. Algumas pessoas se agrupavam para por em prática suas idéias.
Segundo MIranda (2008):
                                         [ ...] movimentos sociais expressivos envolvendo grupos negros perpassam toda a História do Brasil. Todavia, até a abolição da Escravatura em 1888, estes movimentos eram quase sempre clandestinos e de caráter radical, posto que seu principal objetivo era a libertação dos negros cativos
 Esses movimentos atingiam não somente seus proprietários, mas também aqueles que acreditavam veementemente na escravatura como meio de produção e ao Estado, pois ameaçavam a ordem social.
Após muitos anos de ações ilegais dos escravizados contra as condições em que viviam e das reações desesperadas dos senhores de escravos e do Estado, é assinada a Lei Áurea. A lei 3.353 de 13 de maio de 1888 extinguiu a escravidão e se esqueceu daqueles que foram escravizados; a Lei não diz o que seria feito com as pessoas que tiveram suas vidas roubadas pelo sistema escravagista, não lhes legou uma indenização, não menciona reparação. Depois dessa lei a sociedade não acolheu a imensa massa de ex-escravizados como parte de sua constituição, mas os excluiu, tornando-os marginais.
Após tantos anos de movimentos de resistência às desigualdades, os afrodescendente não estavam livres: continuaram tendo que resistir às injustiças que vieram acontecendo com mais impulsividade nos anos posteriores, chegando a ser criados alguns movimentos antirracistas
Santos (2000) afirma que o racismo brasileiro é um problema de consciência. Muitas vezes, a cabeça está cheia de pseudovalores que chega a estruturar a vida a partir desses valores.
                                        Quando isso acontece nossa prática diária passa a reforçar idéias alheias e passamos a defendê-las como se fossem as nossas idéias. É isso que acontece com o racismo no Brasil. Alguém nos diz que o preto é inferior ao branco e tomamos isso como verdade absoluta; sequer questionamos a afirmação. Nós acreditamos que o racismo só será superado a partir da prática junto a um movimento negro. Quando nos inserimos em um grupo negro combativo, vamos reaprender a maneira de ser do negro. As idéias escritas e faladas contribuem muito, mas não traduzem toda a riqueza que tem a convivência direta com os valores negros. Essa convivência nos tira a venda dos olhos (a qual impede a transparência da miséria social em que a comunidade negra vive), para podermos enxergar melhor a situação de injustiça em que os brancos nos colocaram no passado e de que maneira insistem para continuarmos nela (SANTOS, 2000, p70).



3 SURGE O MOVIMENTO NEGRO
                          É comum achar que o movimento negro organizado só começou nos
anos 1930 por meio da Frente Negra Brasileira, sendo retomado décadas depois, com o nascimento do Movimento Negro Unificado (MNU), no final dos anos 1970. Havia uma articulação de atores e grupos negros em outros momentos. Isto permite perceber que o movimento negro contemporâneo já acumula experiência de gerações, sendo herdeiro de uma tradição de luta que atravessa praticamente todo o período republicano.
                                  É por intermédio das múltiplas modalidades de protesto e mobilização que o movimento negro vem dialogando, não apenas com o Estado, mas principalmente com a sociedade brasileira. A trajetória desse movimento vem se caracterizando pelo dinamismo, pela elaboração e reelaboração, em cada conjuntura histórica, de diversas estratégias de luta a favor da integração do negro e erradicação do racismo na sociedade brasileira. Para finalizar, vale lembrar que o movimento negro forjou certo nível de organização no pós Abolição que não pode ser mais obliterado pela historiografia e, especialmente, pelas linhas de pesquisas especializadas no resgate dos movimentos sociais do período republicano (DOMINGUES, 2007, p122).
Desde o século XVI, os negros já havia desenvolvido várias formas de resistência ao sistema escravocrata. Essa ideologia de que os negros sempre foram passivos foi passada ao longo dos tempos (FERREIRA, 1998), sendo uma das maneiras de os brancos dominadores esconderem a história ou mesmo negar as diversas lutas e formas de resistência travadas pelo povo negro aqui no Brasil
                                      Tinham formas de resistência tanto individuais quanto coletivas. Tanto passivas quanto ativas: havia o banjo, forma passiva pela qual o escravo era tomado de profunda tristeza e ficava sem comer e sem beber até morrer, num ato de protesto individual. Outra forma de resistência era a fuga individual, forma ativa na qual o escravo se virava como podia (FERREIRA, 1988, p.15).
Na visão histórica de Ferreira (1998), os quilombos foram a estratégia de resistência que melhor representou a luta contra a ordem escravocrata.
Ao organizarem suas fugas, os negros formaram comunidades no interior das matas conhecidas como quilombos. Nesses espaços, organizavam uma produção agrícola autônoma e formas de organização sociopolítica peculiares. Ao longo de quatro séculos, os quilombos representaram um significativo foco de luta contra a lógica escravocrata. De acordo com Ferreira (1998), eram lugares de refúgio dos negros a fim de sobreviver, defender e resistir aos ataques dos fazendeiros. O maior Quilombo da história, Quilombo dos Palmares, tinha mais de vinte mil habitantes. Essas organizações chamadas de quilombos se espalharam por todo o país
                             Fiabani (2005) já afirmou que os Quilombos foram os primeiros atos de afirmação coletivos de negação da escravidão e de acolhimento dos sujeitos dominados. Os aquilombamentos surgiram como um espaço de agregação étnico cultural e formularam uma cultura negra peculiar. Era a oportunidade de criar pequenos pedaços da África no Brasil. Sendo assim:
                                  a fuga era uma negação da sociedade oficial, que oprimia os negros escravos, eliminando a sua língua, a sua religião, os seus estilos de vida. O Quilombo era uma reafirmação da cultura e do estilo de vida africanos, organizados aos moldes dos estados africanos... um fenômeno conta aculturativo, de rebeldia contra os  padrões de vida impostos pela sociedade oficial e de restauração dos valores antigos (Fiabani, 2005, p.30).
                     Segundo Guimarães (2006), acerca da mudança de padrões de  protesto do movimento negro a partir de 1945:
                                        O protesto negro não desapareceu, muito pelo contrário, ampliou-se e amadureceu intelectualmente nesse período. Primeiro, porque a  discriminação racial, à medida que se ampliavam os mercados e a competição, também se tornava mais problemática; segundo, porque os preconceitos e estereótipos continuavam a perseguir os negros; terceiro, porque grande parte da população “de cor” continuava marginalizada em favelas, mucambos, alagados e na agricultura de subsistência. Serão justamente os negros em ascensão social, aqueles recentemente incorporados à sociedade de classes, que verbalizarão com maior contundência os problemas da discriminação, do preconceito e das desigualdades (GUIMARÃES, 2006, p. 88-89).    
Na opinião de, Neres, Cardoso e Markunas (2006, p.13):
                                  Abolidas as diferenças jurídicas, ele, o negro, encontrou diferentes barreiras para romper com as relações de dominação-subordinação, originárias do regime escravista. Contudo o negro não se calou e, desde o início do século XX, organizou associações, escolas e jornais que serviram como autovalorização de sua história e como veículos de pressão pelo fim da discriminação racial.
Portanto, nota-se que as desigualdades raciais e a luta dos negros por igualdade encontram raízes na história da sociedade brasileira.
Neres, Cardoso e Markunas afirma que os debates sobre a situação social do negro e a existência do preconceito de cor faziam parte das preocupações negras que surgiram no início do século XX:
                                         A instauração do Estado Novo, em 1937, com o golpe de Getúlio Vargas, abortou dezenas de experiências políticas e sociais em todo o país. A pesar das restrições, as associações e a imprensa negra não permaneceram completamente inativas. Em 1938, três eventos foram significativos: o Congresso Afro-Campineiro, a Associação dos Brasileiros de Cor e a União Nacional dos Homens de Cor (NERES; CARDOSO E MARKUNAS, 2006, p.165). 
Nos anos 1960-70, a situação do negro na sociedade brasileira não mudara substancialmente. Em seu estudo, elaborado entre 1963 e 1964, Florestan concluía que:
                                        [...] não só os mecanismos de dominação racial tradicionais ficaram intactos. Mas a reorganização da sociedade não afetou, de maneira significativa, os padrões pré-estabelecidos de concentração da renda, do prestígio social e do poder. Em conseqüência, a liberdade conquistada pelo “negro” não produziu dividendos econômicos, sociais e culturais. Ao contrário, dadas certas condições especificamente históricas, do desenolvimento econômico da cidade, ela esbarrou com as pressões diretas e indiretas da substituição populacional. (FLORESTAN, 1965: p.388-89)
                            O movimento negro a partir da década de 1970 adotou uma estratégia mais politizada de denúncia aberta à discriminação racial e ao racismo na sociedade brasileira. A atuação desse movimento registrou a concordância entre intelectuais negros de que a raça constituía-se um conceito organizador das relações sociais no Brasil, daí passou a pautar a importância de participar e influir na elaboração e conteúdo da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional com objetivo de desacreditar a ideologia da democracia racial reeditada até então na orientação de leis e diretrizes das políticas públicas. Segundo Bento Silva (2002), esse movimento gera condições não só para a recriação das identidades, e, consequentemente o deslocamento das fronteiras, mas possibilita o encontro do país consigo próprio, com sua história, com seu povo, com sua identidade.
                                         A proliferação de movimentos étnicos, religiosos, nacionalistas e outros, nos quais o sujeito se constitui em referência a um dado cultural específico (gênero, preferência sexual, idade, etc.) tem levado vários cientistas sociais, sobretudo a partir da década de 1970, a nela buscar os sinais dos novos tempos (GONÇALVES, 1988, p.30)
Em 07 de Julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo houve uma manifestação contra o preconceito racial que mais tarde se tornaria o Movimento Negro Unificado (MNU), uma das entidades do Movimento Negro no Brasil, que tem o objetivo de denunciar, permanentemente, todo tipo de racismo e organizar a comunidade negra.
                                         A repercussão nacional do ato público nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1978, possibilitou a criação de muitas organizações em diferentes estados do país e acabou sendo responsável pela difusão da noção de "movimento negro" como designação genérica para as diversas entidades e ações a partir daquele momento bastante evidente do trabalho de disputa pela memória nacional, que culminou com a inscrição do nome de Zumbi no livro dos heróis da pátria, em 20 de novembro de1996. (ALBERTI, 2008).

                             A formação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, que depois passou a se intitular apenas Movimento Negro Unificado (MNU), contestava a idéia de que se vivia uma democracia racial brasileira, idéia que os militares adotaram na década de 1970.
                                     
                                         Mas a questão racial também não encontrava lugar nas organizações de esquerda. Para a maioria delas, a desigualdade e o preconceito racial eram decorrentes da exploração da classe dominante no sistema capitalista. Para a esquerda, só a revolução socialista poderia aniquilar toda e qualquer desigualdade, por isso não fazia sentido uma luta específica contra o racismo. Ao eliminar a desigualdade social, automaticamente se eliminaria a desigualdade racial – era assim que a maioria da esquerda pensava (ALBUQUERQUE E FILHO, 2006, p290).


Cardoso utiliza-se da argumentação e diz:
                                        O discurso enfático e agressivo do Movimento Negro ao denunciar o                       preconceito, os estereótipos, o racismo e as discriminações raciais no Brasil pressiona a academia para a incorporação da dimensão étnico-cultural no levantamento de novos indicadores sociais, entre finais da década de 80 e durante a década de 90 no Brasil (CARDOSO 2005, p.2).

Do ponto de vista de Oliveira (2004), em um país que após a abolição da escravatura nunca discriminou formalmente os negros [...], não deveria ser difícil identificar essa dimensão da vida social onde o racismo se esconde.
Vale ressaltar que Hélio Santos, uma liderança importante do Movimento Negro, afirma que se deve considerar o cotidiano das relações raciais para se avançar significativamente nesse tema (SANTOS, 1997, p.214, apud OLIVEIRA, 2004, p.87)
Para Oliveira (2004), a duplicidade entre integração plena e discriminação racial, seria produto da desarticulação entre esfera e espaço públicos no Brasil, demandando esforços dessas duas dimensões da vida social
Sobre a educação e o Movimento Negro no Brasil, Cardoso (2005) alega que as organizações negras têm promovido o reencontro entre a educação e a cultura, articulando o conteúdo simbólico [...] com o desenvolvimento educativo do jovem e da criança.
Gonçalves e Silva (2000), afirmam que o movimento negro passou, assim, praticamente a década de 80 inteira, envolvido com as questões da democratização do ensino.
                                        Podemos dividir a década em duas fases. Na primeira, as organizações se mobilizaram para denunciar o racismo e a ideologia escola dominante. Vários foram os alvos de ataque: livro didático, currículo, formação dos professores etc. Na segunda fase, as entidades vão substituindo aos poucos a denúncia pela ação concreta. Esta postura adentra a década de 90 (GONÇALVES; SILVA,2000, p 155)

Como exemplo, a educação brasileira baiana é desmascarada e afirmada como um grande cenário revelador da desigualdade a que estão submetidos os afro-descendentes no Brasil.

                                         Esses estudos foram impactados pelas críticas do Movimento Negro à educação brasileira e por outro lado, impactou este mesmo Movimento na Bahia, que colocou a educação como ponto prioritário da sua agenda de combate ao racismo (CARDOSO, 2005, p. 5).

                          Hasembalg e Silva (1990) analisando os dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) de 1982 levanta o perfil racial do acesso aos patamares mais altos de escolarização, constatando que o grau mais acentuado de desigualdade de oportunidades entre grupos de cor se estabelece no nível de ensino superior: 13,6% de brancos, 1,6 % de pretos e 2,8% de pardos conseguiram ingressar no ensino superior brasileiro. De acordo com esses dados, Hasenbalg e Silva concluem:
                                         Isto significa que ter cor de pele branca no Brasil significa ter 8.5 vezes mais chances com relação aos pretos e quase cinco vezes mais probabilidades relativamente aos pardos de ter acesso às universidades. Nesse aspecto da distribuição entre grupos de cor  das oportunidades de ingressar no ensino superior, o Brasil encontra-se mais perto da África do Sul do que dos Estados Unidos, onde, em 1980, os brancos tinham chances 1,4 vezes maiores que os negros de ingressar nesse nível educacional. Em suma, este quadro geral das realizações educacionais dos grupos de cor mostra que pretos e pardos estão expostos a um grau maior de atrito no seu trânsito pelo sistema escolar, o que faz com que iniciem a etapa de vida adulta com uma considerável desvantagem em termos de educação formal (Hasenbalg ; Silva, 1990, p.76)

                           Esses pesquisadores apontam duas tendências nos raros estudos sociológicos da década de 80 que cruzam raça e educação: pretos e pardos obtém níveis de escolaridade inferiores aos dos brancos de mesma origem social (CARDOSO, 2005).
 De acordo com Barcelos (1992), tais dados revelaram que na conjuntura dos anos 80 e início dos anos 90, a exclusão racial do negro da universidade se caracterizava racialmente como uma segregação.
Na opinião de Ianni (2004), no que se refere às cotas nas universidades, ele afirma:
                                         Num primeiro momento, a definição e a obrigação de cotas aparecem como conquistas sociais do Movimento Negro. Ou como diriam outros, como concessões dos donos do poder. Aqui está o problema, já que nenhum fato social tem apenas um significado. Os setores dominantes (seja Congresso, seja o Governo, sejam aqueles que decidem) aceitando o sistema de cotas, estão, de certo modo, concordando com uma determinada interpretação e o atendimento de algumas reivindicações. Então numa primeira avaliação, o estabelecimento de cotas aparece como uma conquista positiva; mas, simultaneamente, é a reiteração de uma sociedade injusta, fundada no preconceito. Ela é tão evidentemente fundada no preconceito que é preciso estabelecer espaços bem determinados e limitados para que eles tenham a possibilidade de participação (IANNI, 2004, p.16).

Na visão de Ianni (2004), as cotas são uma conquista e uma legitimação de uma sociedade preconceituosa [...]; esses negros não tiveram condições de estudar a ponto de não serem classificados nos exames de seleção.

                                         Já vem de uma condição social com limitação. E, em vez de enfrentarmos o  problema na raiz [...], se estabelece a cota. Não se mexe na ordem social que é uma fábrica de preconceitos, mas somente num nível restrito, que é o nível do acesso a certos espaços. É uma negação da idéia de democracia racial porque se ela existe, todos estão participando em situação de igualdade, mas sabemos que não é isso o que acontece. É também muito cruel, já que futuramente as elites dirão: “por que vocês estão reclamando? Nós abrimos espaços em nossas repartições públicas, nas universidades, etc”. Como se isso fosse a conquista plena (IANNI, 2004, p.17).

Para Cardoso (2005),

                                         as críticas dirigidas pelos Movimentos Negros ao sistema escolar brasileiro davam ênfase [...] aos estereótipos racistas a que estavam submetidos os negros [...] e às desigualdades de oportunidades educacionais a que estavam submetidos os afrodescendentes no Brasil.

                 
Talvez uma das razoes dessa reação seja que a Universidade é o local de formação dos quadros do poder (Tragtemberg, 2003). Como deixar os negros adentrarem a ela? E negros com o poder parece uma situação pouco interessante. De novo, não se trata de opor brancos a negros, mas sim de justiça, de repartir conscientemente o poder já que metade da população é negra e metade é branca.

                     Segundo o especialista Skidmore (1994), o Movimento Negro Unificado (MNU), expressa a onda de consciência afro-brasileira mais forte que apareceu neste século. Um dos fatores que ilustram essa força é o surgimento de ampla literatura afro-brasileira (muitas das quais mantidas pelos próprios autores). Na luta anti-racista no Brasil, o movimento negro contemporâneo teve no MNU um importante instrumento de qualificação das nossas reivindicações junto ao Estado e à sociedade
Com relação ao negro no mercado de trabalho e a atuação do movimento negro, Araújo tece o seguinte argumento:
                                A inserção da população negra no mercado de trabalho no Brasil é marcado pela vulnerabilidade que resulta da desigualdade racial. Ela trabalha mais e ganha menos do que a população branca, ocupa postos de trabalho mais precários e está mais disposta ao desemprego. Esta evidência emerge da consulta às estatísticas oficiais [...]. Para reverter esse quadro, não podemos descuidar das ações educativas capazes de desconstruir esses preconceitos. O resultado dessas iniciativas, no entanto, só produzirão resultados a longo prazo. Urge, portanto, a adoção de uma política de inserção imediata do negro no mercado de trabalho, de modo a quebrar esse círculo vicioso de exclusão e pobreza (ARAUJO, 2005).

E para finalizar, Dietrich (2006) argumenta que o Movimento Negro vem conquistando o espaço de atuação na sociedade [...] das promoções das ações afirmativas e políticas de cotas até lojas de bonecas negras que despolariza o mercado consumidor. Mas certamente a mais simbólica dessas vitórias é ver 232 cidades do país comemorando como feriado o dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, dia da morte de Zumbi dos Palmares.
Comerciantes, autônomos, empregados, professores e políticos negros e pardos desempenham, cada um nos seus respectivos espaços, a função de resgatar e manter viva a cultura e a história negra, presente em cada detalhe do tecido social
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

  Como indicado na introdução, o objetivo deste trabalho é refletir de forma detalhada sob diversas dimensões as verdadeiras características da desigualdade racial no Brasil, entendendo suas lutas e conquistas ao longo dos séculos XIX E XX. Em particular, procura tornar evidente, no contexto da investigação sobre as condições de vida da população negra, a magnitude das diferenças e as trajetórias de convergência ou divergência entre brancos e negros ao longo dos anos.
A necessidade de uma ação anti-racista que enfrente o desafio histórico de integrar as perspectivas universalistas e diferencialista encontra-se, cremos, no centro de um processo de desnaturalização da desigualdade racial. Os limites, impossibilidade para alguns da integração dessas perspectivas são enormes, mas, talvez, o uso da tolerância no espaço democrático, associado à uma perspectiva de pluralidade de culturas no seio da sociedade brasileira possa sugerir caminhos. Portanto, faz-se necessário redefinir os horizontes de igualdade de oportunidades, de condições e de resultados, fazendo dispor, entre outros, de políticas explícitas de inclusão racial. A redução da desigualdade entre brasileiros brancos e brasileiros afro-descendentes apresenta-se como prioridade para constituirmos uma sociedade democrática, livre, economicamente eficiente e socialmente justa.
                             A natureza desse trabalho além de seu cunho interdisciplinar é também proporcionar uma releitura sobre os negros no Brasil, desde suas angústias, preconceitos sofridos até suas conquistas e demandas atuais, através de órgãos filiados ao Movimento Negro, ou por suas lutas isoladas, autodidatas.
                       O racismo é uma força central perpetuando as desigualdades socioeconômicas no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo. O racismo brasileiro possui suas raízes no comércio de escravos africanos. A opinião historicamente popular de que o Brasil é uma democracia racial continua a impedir o reconhecimento das desigualdades raciais. Contudo, estas desigualdades são profundas e persistentes, aprisionando muitos brasileiros negros em um círculo vicioso de pobreza, resultados educacionais ruins, baixo acesso a bens e serviços, discriminação no mercado de trabalho e violência. O movimento negro no Brasil há muito tempo estabelecido tem lutado por ação pública contra o racismo. Conquistas recentes incluem a criação de uma estrutura legal para lidar com o racismo; uma série de discussões de política participativa e conferências sobre racismo; a criação de instituições governamentais encarregadas de promover a igualdade racial; e a indicação de pessoas negras para cargos seniores do governo. O desafio de combate ao racismo institucional em todos os níveis e da criação de um ambiente de mídia mais construtivo permanece.
                           Convém não esquecer que, no próprio universo de bibliografias pesquisado, as trajetórias e opiniões dos autores nunca são unânimes. Nessa pesquisa, foram vistas opiniões de autores de diferentes regiões e muitas vezes de posições divergentes, o que permite perceber a pluralidade de experiências e avaliações entre os próprios militantes. Mas não há dúvida de que todos tiveram por objetivo o combate ao racismo e a sua cota de participação pela melhoria das condições de vida das populações negras. 


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